Archive for maio \22\UTC 2011

Paris, Texas

maio 22, 2011

Jane (Nastassja Kinski) e Travis (Harry Dean Stanton) eram casados mas depois de uma briga terrível se separaram e ficaram sem se ver por mais de quatro anos. Esse diálogo acontece quando eles se reencontram e Jane fala como se sentiu.  Roteiro: Sam Shepard.

Jane – Eu costumava conversar a sós com você depois que você partiu. Eu costumava falar com você o tempo todo, mesmo estando sozinha. Conversei com você por meses a fio. Agora não sei o que dizer. Era mais fácil quando eu apenas o imaginava. Eu até imaginava que você me respondia. Tínhamos longas conversas. Só nós dois.  Era como se você realmente estivesse comigo. Eu o via, sentia seu cheiro. Eu podia ouvir sua voz. Às vezes sua voz me acordava. Acordava-me no meio da noite, como se você estivesse no quarto comigo. Depois, isso foi lentamente acabando. Já não podia mais imaginar você. Tentei falar em voz alta com você como sempre fazia, mas não havia nada lá. Já não podia mais ouvi-lo. Então eu apenas desisti. Tudo acabou. Você simplesmente desapareceu.

Asas do Desejo

maio 6, 2011

O anjo Damiel (Bruno Ganz)  fala como está cansado de sua condição de ser apenas um espírito e não poder vivenciar as coisas que vê. Roteiro: Wim Wenders, Peter Handke e Richard Reitinger.

Damiel – É ótimo ser espírito e testemunhar por toda a eternidade apenas o lado espiritual das pessoas. Mas, às vezes, me canso dessa existência espiritual. Em vez de pairar para sempre, eu queria sentir um certo peso que ponha fim a falta de limite e me prenda ao chão. Eu gostaria de poder dizer “agora” a cada passo, a cada rajada de vento.  “Agora” e “agora” e não mais “para sempre” e “eternamente”. Sentar-me numa mesa de jogos sem dinheiro, ser cumprimentado. Toda vez que participamos foi apenas fingimento. Lutamos com alguém e fingimos deslocar o quadril. Fingimos pegar um peixe. Fingimos sentar nas mesas, beber e comer. Fingimos ter cordeiros assados e vinhos servidos nas tendas do deserto. Não, não preciso ter um filho ou plantar uma árvore, mas seria bom voltar para casa após um longo dia e dar comida ao gato, como Philip Marlowe. Ter febre, dedos pretos por causa do jornal. Não vibrar apenas pelo espírito, mas por uma boa refeição, pelos contornos de uma nuca, de uma orelha. Mentir…descaradamente. Sentir os ossos se movendo enquanto caminha. Supor em vez de saber sempre. Poder dizer “ah”, “oh”, “ei”, em vez de “sim”e “amém”.